Um assunto que desperta muito interesse mas, ao mesmo tempo, um certo espanto, é como os hindus fazem as cremações à céu aberto, nas margens do Rio Ganges, em Varanasi.
Os hindus cremam os corpos de seus entes falecidos por acreditarem que assim a alma se liberta mais rápido do seu carma e eles encerram ali o ciclo de reencarnações.
Levando em conta o tamanho da população da Índia, que já ultrapassa 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, sendo que 80% são hindus, imagine só o problema de espaço que o país teria se precisasse enterrar os seus mortos.
Ghats de Cremação
Existem dois
shmashan ghats, que são os Ghats (escadarias) onde acontecem as cremações a céu aberto, em Varanasi. Um deles é o Harishchandra Ghat, que, além das cremações tradicionais, possui também um crematório elétrico (fotos no post sobre os
Ghats de Varanasi) e o outro, o
Manikarnika Ghat, que é o mais importante e onde acontecem cerca de 300 cremações por dia.
Cremação em Harishchandra Ghat
Apenas os homens participam das cremações. As mulheres são proibidas no local (exceto turistas), pois podem chorar durante o ritual e aquele não deve ser um momento de tristeza e sim, de libertação do carma.
Enquanto um corpo é cremado, outro aguarda na escada e mais um já vem descendo. O movimento neste Ghat é intenso!
Como fui até lá e o que eu vi
Já era final de tarde, eu estava navegando pelos Ganges e pedi ao barqueiro para me levar até Manikarnika Ghat, pois eu queria assistir ao menos, a uma uma cremação.
.
Assim que passamos por Dasaswamedh Ghat, o maior Ghat de cerimônias e rituais, já foi possível avistar uma fumaça espessa, vinda das fogueiras. Havia várias fogueiras cremando ao mesmo tempo e, nem bem uma pira era acesa, já vinha descendo outro corpo.
Esta fumaça espessa podia ser vista de longe
E foi assim, de dentro de um barco, no meio do Ganges, que eu assisti à várias cremações no Manikarnika Ghat.
Pedido de respeito e tentativa e extorsão
Eu já estava filmando o passeio quando me aproximei do Manikarnika Ghat e continuei filmando e fotografando as cremações. De repente, um senhor de branco, que estava de pé em outro barco e se dizia "sacerdote", pediu que eu parasse de filmar, pois era falta de respeito com os mortos e a dor dos familiares. Achei justo e concordei, desligando a câmera. Mas aí é que começou uma longa tentativa de extorsão por parte deste "sacerdote".
Este senhor pulou para o meu barco e disse que queria me levar para perto das cremações e me explicar com detalhes sobre os rituais e me disse que eu deveria pagar 500 rúpias para ajudar os mortos a cumprirem o seu carma. Ahaam!
Eu respondi que não iria descer do barco e que queria assistir as cremações de lá mesmo. Então ele começou a falar sem parar, pedindo que eu olhasse para ele. Respondi que preferia olhar para os rituais e que dispensava a explicação. Mesmo assim, ele insistiu com as 500 rúpias, dizendo então que eram para a libertação do meu carma. Ahaam.... Depois baixou para 300 rúpias. Ahaam de novo! Eu respondi que queria cumprir meu carma como deveria ser e pedi a ele que respeitasse os mortos e ficasse em silêncio. Foi desagradável e cansativo, pois ele me atrapalhou muito, já que eu não queria perder nenhum detalhe do que estava acontecendo à minha frente.
Depois de insistir mais um pouco, ele desistiu e voltou para o seu barco, provavelmente de olho no próximo turista que chegasse pelo rio. E pelo que eu percebi, existe uma máfia destes "sacerdotes" tentando extorquir dinheiro de turistas, pois de dentro do barco eu vi outros turistas que estavam no Ghat também sendo assediados por estes homens.
Não achei nada “respeitoso” este assédio, principalmente porque eles iniciam a conversa pedindo que não se fotografe por “respeito aos mortos”. Na verdade, o que eles querem mesmo é dinheiro, tentando comover os turistas com este papo de carma e respeito.
Fotos das cremações
Todas as fotos foram feitas antes da interferência do tal "sacerdote", por isso não tenho muitas imagens de quando cheguei mais próximo ao Ghat. E, mesmo quando este foi embora, eu não liguei mais a câmera, preferi apenas assistir e refletir.
A quantidade de madeira é tanta que eles armazenam também em barcos.
E até pelas escadarias do Ghat vizinho.
Quanto custa uma cremação no Manikarnika Ghat
Cada corpo adulto precisa de 250 a 300kg de madeira, que custam em torno de 2.000 rúpias (pouco mais de cem reais), dependendo da qualidade da madeira.
Muitas pilhas de lenha e vacas pelo Ghat
Quem tem um maior poder aquisitivo, acrescenta sândalo para amenizar o cheiro da carne queimando. Mas como o valor é altíssimo, cerca de US$ 60,00 por kg de sândalo, somente os muito ricos cremam seus entes com sândalo puro.
A Casa da Morte
No início do Ghat tem um prédio que é conhecido como a Casa da Morte, pois é um lugar que recebe doentes terminais, geralmente pessoas muito pobres e sem familia, que chegam para esperar a morte.
A seta vermelha aponta onde é a Casa da Morte
Neste local, os doentes recebem comida e madeira suficiente para a sua cremação, através de doações da comunidade e de comerciantes hindus. Mas existem muitas outras casas e asilos similares pela cidade.
O fim de um carma
Morrer em Varanasi e ser cremado às margens do Ganges é um grande privilégio para os hindus, pois representa a libertação do ciclo de nascimento, morte e renascimento.
O que eles mais desejam é que o ciclo de vida se encerre nesta passagem, pois reencarnar significa que o carma não foi cumprido e que eles vão retornar à terra para mais dor e sofrimento.
Para muitos que moram longe, esse último desejo se torna impossível, pois além dos custos da cremação, tem o deslocamento, alojamento de familiares, etc.
O caminho até a cremação
Quando um familiar hindu morre, eles cobrem o corpo com um pano e o enchem de flores amarelas e laranja. Depois o levam para um último banho no Ganges antes da cremação.
Na foto, um corpo sendo transportado para um dos ghats de cremação.
Quando eu cheguei em frente ao Ghat, já havia umas 3 ou 4 fogueiras ardendo, mas prestei atenção especial em um corpo que estava chegando.
Corpo chegando para cremação
Este corpo estava em uma “maca” de bambu, encoberto com flores amarelas e era carregado por alguns homens, que deviam ser familiares. Ao se aproximarem do rio, eles removeram as flores, o pano e começaram a tirar as roupas do falecido.
Foto extraída do vídeo e feito zoom, por isso não está muito nítida.
Usando uma caneca e também as mãos em concha, eles pegavam a água do Ganges e iam molhando cada parte do corpo, inclusive abrindo a boca do falecido e colocando essa água. Provavelmente estavam fazendo também orações e foram molhando todo o corpo para purificar a alma do falecido e libertá-lo dos pecados e de seu carma.
Aqui os familiares estavam começando a tirar as flores e o pano que encobria o corpo.
Depois de dar o último banho com as águas do Ganges, eles colocam o corpo entre as madeiras para ser cremado. Quem acende a pira geralmente é o filho homem mais velho. Quem não tem filho homem, segundo os hindus, não encerra o seu carma neste ciclo e precisa voltar para conclui-lo. Mais um motivo para eles idolatrarem tanto um filho homem.
A morte para os hindus é tão normal que esta foto representa até uma certa indiferença!
Depois de cremados, eles jogam as cinzas no Ganges, mas eu vi que, assim que alguns corpos queimam cerca de metade da madeira, os familiares se retiram, já que uma cremação demora em torno de 4 horas. Me disseram depois que eles pagam para alguém ficar cuidando até o final da cremação. Mas imagino que nem sempre o “contratado” fica cuidando. Ele vai embora e deve voltar mais tarde, para jogar as cinzas no rio ou para aguardar que algum familiar venha buscá-las. Muitas vezes, partes dos corpos não são queimadas por completo e estas “partes” são jogadas no rio. O pior é que acabam boiando próximo às margens e são devoradas pelos corvos e cães.
Outra cena que me chamou a atenção é a quantidade de vacas pelas escadas, pois elas comem as flores que são retiradas dos corpos antes de serem cremados.
Quem não pode ser cremado, é jogado no Ganges?
Perguntei ao barqueiro se eles jogavam no rio os corpos de quem não tinha condições de pagar pela cremação e ele me respondeu que, embora hoje seja proibido jogar os corpos no rio, isso ainda acontece. Eles amarram o corpo a uma pedra e o jogam no rio. Geralmente o corpo se desprende da pedra e não demora a subir e a boiar pelo rio.
Ele (o barqueiro) me disse que eles não cremam crianças até 12 anos, mulheres grávidas, sadhus e suicidas. Então eu presumo que estes corpos são todos jogados no Ganges.
Com exceção dos sadhus, que eu não entendi, a restrição faz todo o sentido, pois se a cremação liberta a pessoa do carma, uma criança ainda não teve tempo de cumpri-lo assim como o bebê que uma grávida carrega no ventre. O mesmo em relação ao suicida, que antecipou a sua partida.
Corpo boiando
Enquanto eu voltava do Ghat de cremações, passou por mim um corpo boiando, já bastante inchado. Tive o sangue frio e a rapidez de fotografá-lo, mas como é uma imagem chocante, optei por não publicá-la.
Reflexões
Depois que me livrei do "sacerdote", eu consegui assistir melhor ao que estava acontecendo à minha frente. Meus pensamentos começaram a girar feito um redemoinho, me levando pra longe dali e me trazendo de volta diversas vezes. Tanta coisa se passou pela minha cabeça naquele momento...
Fiquei meio paralisada, olhando tudo aquilo e acho que nem piscava. Meu corpo estava ali, mas minha mente não. Não me senti mal, apenas estranha. Nem escutei quando o barqueiro disse que era hora de irmos embora. Só percebi quando o barco começou a se afastar.
O cheiro
Depois do passeio de barco, ainda dei uma volta pelo Assi Ghat e assisti ao final de mais um Aarti, o Ritual do Fogo. Quando voltei para o hotel, percebi que eu estava exausta, mas com um cheiro horrível de carne defumada. Quando me dei conta de que era o cheiro daqueles corpos queimados, eu corri para o chuveiro. Meus cabelos, minha pele e minhas roupas estavam impregnadas. Aí sim eu me senti mal, meio enjoada. Foi um dos banhos mais demorados que eu tomei na Índia. O cheiro de carne humana defumada eu consegui eliminar, mas o que meus olhos viram, nunca vou esquecer!
Esta foi uma das experiências mais incríveis e marcantes que eu tive na Índia!
Beijos,
Ana Maria
*Em tempo: o cheiro de carne defumada me deixou enjoada por eu saber que se tratava de carne humana e não propriamente pelo cheiro ser ruim.
Curiosidade: as águas do Rio Ganges, apesar de toda a poluição, dos cadáveres, esgotos, etc, misteriosamente, não cheiram mal! Isso eu fiquei impressionada!